MYKE JOURNAL005 / ESTRATÉGIA / GLOBAL

Global no mapa. Retalho na experiência.

Retrato de George Soares
POR GEORGE SOARESCEO & FOUNDER, MYKE GROUP
Imagem editorial para mobilidade global
IMAGEM: MYKE JOURNAL
O APP É O MESMO. A EXPERIÊNCIA NÃO.ROLE PARA LER ↓

Nos últimos dias, acompanhei o movimento da Lyft para ampliar sua presença internacional.

O Uber já faz algo parecido há algum tempo. Em diferentes mercados, o aplicativo conecta carros, bicicletas, patinetes e operadores diferentes. Lime aqui. Tembici ali. Outro operador em outro lugar. Tudo dentro do mesmo aplicativo.

É eficiente. É escalável. E fica maravilhoso num mapa cheio de pontinhos.

Só existe um pequeno detalhe.

Isso não é uma experiência global. É um retalho global de experiências, tipo puxadinho.

Sabe aqueles lençóis feitos com pedaços de tecido que sobraram? Um quadrado vermelho. Outro amarelo. Outro preto. Outro florido. Costura tudo, coloca uma barra bonita em volta e pronto: temos um lençol.

Tecnicamente, é verdade. Só não pergunte se o tecido é o mesmo.

É mais ou menos isso que parte da indústria de mobilidade está fazendo. Uma interface global. Uma conta global. Uma marca global.

E por baixo?

Produtos diferentes. Bicicletas diferentes. Ergonomias diferentes. Tecnologias diferentes. Manutenções diferentes. Padrões diferentes. Regras diferentes. Experiências diferentes.

Mas calma. Muita calma nessa hora!

O aplicativo é global. Então deve estar tudo resolvido.

Não está.

O aplicativo é o mesmo. A experiência não.

Você abre uma plataforma em uma cidade e encontra uma bicicleta. Viaja para outra e encontra outra bicicleta, de outra empresa, com outro desenho, outra qualidade, outra manutenção e outra lógica de utilização. Depois viaja novamente. Outra.

No final, existe mobilidade disponível em vários lugares.

Ótimo, bonito no pitch, mas isso é distribuição global.

Não necessariamente experiência global.

E essa diferença importa muito para mim. Mas muito!

Porque acho que boa parte do setor continua presa a uma lógica antiga. No fundo, ainda estão tentando vender aluguel de bicicleta.

Nós não.

Nós queremos vender experiência.

A bicicleta é parte dela. Uma parte importantíssima. Mas ainda assim, parte.

Quando penso na MYKE globalmente, não penso simplesmente em colocar bicicletas em vários países e depois pintar o mapa em uma apresentação. Penso em alguém usando uma MYKE em São Paulo, depois desembarcando em Nova York, encontrando uma MYKE e reconhecendo imediatamente o produto.

A mesma bike. A mesma ergonomia. A mesma posição. A mesma interface. A mesma lógica de desbloqueio. Os mesmos recursos. A mesma identidade. O mesmo padrão de manutenção. A mesma experiência.

Paris? A mesma.

Londres? A mesma.

Los Angeles? A mesma.

São Paulo? A mesma.

Isso, para mim, começa a significar global de verdade.

Não somente presença global.

Produto global. Tecnologia global. Identidade global. Conta global. Perfil global. Histórico global. Preferências globais. Pagamento global.

Sim.

Até o pagamento.

Porque em 2026 não existe nenhuma razão técnica séria para pensar pagamento como uma experiência isolada cidade por cidade. Existem cartões globais. Existem plataformas financeiras globais. Existem empresas como Wise, Revolut e outras infraestruturas capazes de atravessar fronteiras. Existem stablecoins.

Existem inúmeras maneiras de construir uma camada financeira global por trás de uma experiência. A configuração comercial pode mudar. Em uma cidade determinado uso pode ser patrocinado. Em outra, não. Um parceiro pode mudar. A moeda local obviamente muda.

Mas para o rider?

A experiência de pagamento não precisa mudar.

Esse é o ponto.

Na MYKE, a pessoa não deveria desembarcar em outro país e virar um desconhecido. Ela já existe dentro do ecossistema. A MYKE sabe quem ela é. Conhece seu histórico. Conhece suas preferências. Conhece sua relação com o produto.

A viagem internacional muda a cidade.

Não deveria apagar o usuário.

Esse é um dos motivos pelos quais acredito que a discussão sobre mobilidade precisa sair da obsessão por “quantas bikes” e “quantas cidades”. Esses números são importantes. Claro que são.

Também ficam ótimos num pitch.

“Estamos em 180 cidades.” “Somos o maior da América Latina.”

Bonito. Lindo!

Só tenho uma pergunta inconveniente:

180 cidades oferecendo o quê exatamente?

A mesma experiência? Ou 180 experiências diferentes reunidas debaixo do mesmo ícone no celular?

Porque existe uma diferença. Grande.

Se o rider tem uma ótima experiência com um operador conectado ao Uber ou à Lyft, parte desse mérito acaba chegando à plataforma. Se ele pega uma bicicleta ruim, mal cuidada, desconfortável ou problemática?

Adivinha.

A plataforma também está ali.

A marca está em cima daquela jornada mesmo quando não controla integralmente aquilo que está acontecendo embaixo dela.

É o preço do retalho. É o preço de morar num puxadinho e ainda achar que mora na cobertura.

Você ganha escala rapidamente. Mas também costura experiências que não criou, produtos que não desenhou e padrões que não controla.

Nós escolhemos um caminho mais difícil.

E exatamente por ser mais difícil, acho muito mais interessante.

Não quero que alguém encontre uma bicicleta quando chegar a Paris.

Quero que encontre uma MYKE.

Não quero que tenha que descobrir de novo como funciona. Quero que olhe e reconheça. Não quero que comece uma nova relação com um novo produto a cada cidade.

Quero continuidade.

A mesma energia. A mesma linguagem. A mesma tecnologia. A mesma experiência.

Global. De verdade.

Porque colocar vários operadores dentro de um aplicativo e chamar isso de experiência global é relativamente fácil. Construir uma única experiência e fazê-la atravessar continentes sem perder identidade é outra história.

Os outros podem continuar vendendo aluguel de bicicleta.

Nós queremos vender algo muito maior.

Uma experiência global de mobilidade.

E, no fim, essa talvez seja a diferença mais simples entre as duas visões:

uma plataforma quer encontrar alguma bicicleta para você, em qualquer lugar.

A MYKE quer que, em qualquer lugar, você encontre a sua MYKE.

MOVE QUIETLY.

MYKE / JOURNAL 005

GEORGE SOARES

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